ESPIRITUALIDADE PARA QUEM PARTIU
Tem gente que não consegue ficar. Troca de cidade, de curso, de igreja, de ideia, de versão de si mesmo. Começa coisas e abandona no meio. Se envolve, se cansa, vai embora. E, no fundo, nem sempre sabe explicar por quê. Não por agitação — por fome.
Uma fome estranha, difícil de nomear, que faz com que nenhum lugar pareça suficiente por tempo demais. Toda cidade vira passagem, todo relacionamento vira temporada, toda certeza vira pergunta com data de validade, toda estação é de ida, nunca de chegada.
Se você se reconhece nisso, este texto é para você. E a pergunta que quero fazer é: o que essa inquietação está tentando dizer?
E essa inquietação não é nova. A Parábola do Filho Pródigo, narrada por Jesus em Lucas 15:11, conta a história de um filho inquieto que decidiu partir. Tendo tudo em casa, o amor familiar e a estabilidade necessária para se desenvolver plenamente, decidiu partir.
Numa leitura imediata, vemos que o “partir” não é apenas geográfico; ele pode ser algo do coração também. Antes de ir, geograficamente falando, ele já tinha ido embora de casa em seu coração. Prova disso é que ele pede a herança ao pai que ainda estava vivo.
Há um “partir” mesmo “ficando” e, por mais paradoxal que seja, é algo recorrente em nossa realidade. O marido que, mesmo estando geograficamente perto de sua esposa, está com o coração longe, é alguém que partiu. O filho que obedece apenas por obedecer, é alguém que partiu. Quem participa do Sagrado perto demais para ver e longe demais para sentir, é alguém que partiu.
Como diria um sábio: “nem todo pródigo precisa de um passaporte”.
A Parábola do Filho Pródigo geralmente é lida como a história de alguém que errou e precisou voltar. E isso não está errado, mas e se olharmos por uma ótica diferente, que revela um segredo que há dentro de nós?
Porque o filho mais novo não saiu de casa apenas por rebeldia. Ele saiu porque queria algo. Queria vida, queria experimentar, queria sentir que estava realmente vivendo.
James K. A. Smith, filósofo e teólogo canadense, argumenta em Na Estrada com Agostinho que somos, antes de tudo, seres de desejo — e que esse desejo está sempre em busca de um lar que o satisfaça plenamente.
As motivações para partir são quase infinitas: o ímpeto da juventude, a busca por algo ou por alguém, a busca por si mesmo, pela felicidade, pela superação da solidão, pelo pertencimento. Mas todos partem. Todos começam, cedo ou tarde, uma jornada existencial para qualquer lugar que não seja o aqui.
O principal problema não está em ir, em partir. O principal problema é nunca chegar. E, normalmente, isso acontece porque há um sentimento de ansiedade que não permite que nos sintamos em casa. Somos convencidos de que a estrada é a vida, os pontos de chegada são permeados de tristeza e o desenraizamento é o lar.
No romance Pé na Estrada (On The Road), de Jack Kerouac, um dos personagens diz: “Ele não tinha onde ficar sem se cansar de tal lugar, até porque não havia para onde ir além de todos os lugares”.
A ansiedade de estar em movimento, de não se contentar, transforma a vida em um eterno caminhão de mudanças. Não há estabilidade porque não há um sentimento de casa.
Zygmunt Bauman chamou a nossa época de modernidade líquida — uma cultura em que criar raízes virou suspeito, vínculos duradouros parecem ingênuos, e o compromisso soa como armadilha. Nesse mundo, a ansiedade de estar sempre em trânsito não é exceção. É o estado padrão.
E o que ela produz não é liberdade — é a sensação permanente de não ter casa. As pessoas se jogam em movimento constante não porque amam o destino, mas porque não suportam ficar com elas mesmas. O “partir”, muitas vezes, não é busca. É fuga do silêncio.
Quem transformou a estrada em vida, que não consegue se enraizar e não descansa, que ainda não entendeu que a fome do coração é infinita, não pode perceber que essa busca desenfreada pelo próximo lugar, pela próxima estação, pelo próximo relacionamento, pela próxima viralização, pelos próximos seguidores, é sintoma de uma autoalienação.
Nesse processo, não há o reconhecimento de quem sou e vivo numa situação em que preciso “comprar” identidades, já que todo lugar que chego, preciso de um novo personagem.
Mas então, como sair disso? Como o homem que virou personagem de si mesmo volta a ser quem é?
A parábola responde: “Então, caindo em si” (Lucas 15:17 NAA).
A espiritualidade para os que partiram consiste em responder uma pergunta: “E se eu voltar para casa?”
Espiritualidade é perceber que minhas idas e vindas não são suficientes para preencher meu coração.
Agostinho, em seu livro Confissões, aponta um norte para os que estão em partidas e nunca chegam: “Fizeste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Ti”.
Porque existe algo curioso na alma humana: ela pode se afastar de Deus, mas não consegue deixar de procurá-lo. Todas as minhas partidas são superadas quando volto para o Pai.
Ed René, em O Melhor da Espiritualidade Brasileira, diz algo fantástico: “Deus é a fonte da satisfação plena. Toda e qualquer alternativa de satisfação contrária às leis espirituais e em oposição à vontade e ao caráter de Deus são bombas-relógio.”
Toda fome, toda fuga, toda partida tem um endereço. O problema é que demoramos muito para admitir que o endereço pode não ser um lugar — pode ser uma presença.
A espiritualidade para quem partiu não começa com uma resposta religiosa. Começa com a honestidade de admitir que a fome, o desejo, as idas e vindas existem, mas nada do que foi experimentado daqui soube saciar a fome e nos colocar em casa.
Concluo com a conjectura de Smith sobre a mãe do filho pródigo contando a ele sobre a atitude do pai: “Ele caminhava todos os dias até o fim da estrada esperando por você".
Essa é a imagem central da espiritualidade para os que partiram: não a chegada heroica de quem conseguiu voltar, mas a expectativa de retorno presente no coração do Pai.

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